quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Campus Party

Bom dia a todos!

Depois de muito tempo, volto a escrever algumas palavras no OQQO. Final e começo de ano são sempre complicados, cheio de tarefas e pouco tempo para escrever. Mas agora, pretendo manter o OQQO sempre atualizado.

Somente para conhecimento: vou montar um esquema de links no site. Funciona  de uma forma bem simples: o que tiver sublinhado e destacado é um link para um outro site contendo mais informações. Simples. Isso evita textos muito longos, e ao mesmo tempo dou crédito para quem já escreveu sobre a informação.

Hoje, falarei um pouco da CAMPUS PARTY!

Em poucas palavras: uma galera GEEK se encontrando para falar de tecnologia.

Em suma, trata-se do maior evento de tecnologia, internet e entretenimento eletrônico do mundo. Começou em 1997, e desde então vem crescendo de uma forma impressionante.

Um detalhe importante é que os campuseiros, como são chamados, ficam literalmente acampados no local! Sim, por 7 dias desse ano, o evento ocorreu em São Paulo, no Centro de Exposições Imigrantes, um local com mais de 38 mil km². Os participantes inscritos “dormem” em barracas no galpão, algumas trazidas de casa, outras fornecidas pelo próprio evento. Eu ganhei a minha, podia trazer pra casa quando saísse da Campus. Quanto ao “dormem”... bem, eu dormi pouco, era palestra o tempo todo, fora os eventos dos patrocinadores. Ganhávamos brindes e outras coisas simplesmente participando de gincanas e outras atividades. Ganhamos até uma conta no site da Microsoft, com direito a download de qualquer programa MS (com exceção do Office). Sim, eu agora tenho licenças originais do Windows 7, Windows XP, Windows Vista e Windows Server 2008 R2.

Nesse ano, foram mais de 6000 campuseiros, fora as outras pessoas que estavam somente de passagem. E essa galera toda levou seu computador ou notebook (ou os dois em alguns casos). Considerada a maior rede de entretenimento de computadores, a Campus Party contou com um link de 10GB de Internet, patrocinado pela Telefonica. Considerando que, hoje, a grande maioria possui uma internet de 1MB ou mais, seria 10 mil vezes mais rápido. Se pudéssemos utilizar 100% dessa conexão, poderíamos baixar o conteúdo de um DVD inteiro em questão de 3,76 segundos (considerando cálculos de conexão doméstica) ou em menos de 0,4 segundos (considerando cálculos de conexão empresarial). Um dia chegamos lá.

Você deve estar pensando: só louco nerd vai nessas coisas.

Bem, eu sou um louco nerd. Fui nesse evento, estava querendo ir já há alguns anos com meus amigos. Infelizmente, eles não conseguiram licença do trabalho. É uma pena, pois esse tipo de evento traz um conhecimento que nenhum curso pode agregar. Vivemos em uma era inovadora e tecnológica, fico triste em pensar que muitos chefes e outros administradores não tenham a cabeça aberta para essas situações.

Enfim, ocorreram várias palestras e vários Workshops sobre Modding, robótica, Blogs, Design, Fotografia, Música, Vídeo, Games, Simulação, Desenvolvimento, Segurança e Rede e Software Livre. Assisti a várias delas, inclusive uma de um hacker bem famoso, cuja história já virou filme. Quem não entendia inglês, colocava um fone e ouvia a tradução simultânea. Para mim, foi uma das melhores coisas do evento. O cara é muito fera.

Presenciei workshops de construção de robôs, antenas wireless caseiras, como transformar um controle de vídeo-game em um controle estilo Fliperama, etc. Teve até uma banda que tocava somente músicas e trilhas sonoras de jogos clássicos e alguns animes (quando tocaram o solo de Top Gear e Zelda eu fiquei maluco!)

Compartilhamos MUITOS arquivos na rede. Eu levei meu notebook e meu HD externo de 1 TB (da pra colocar mais ou menos 217 DVDs completos). Baixei nada mais que 750GB de coisas, tanto da rede quanto da internet. Essa parte de "compartilhar" foi muito focada também, envolvendo todas as comunidades possíveis, como Orkut, Facebook, Twitter, e outros. Teve gente que foi para o evento somente para conhecer outras pessoas.

A quantidade de coisas que aconteceram nesses 7 dias foram impressionantes. Sugiro que olhem as fotos no meu Orkut (album 1 e album 2) para terem uma noção básica.

Esse evento, além de extremamente divertido, foi imensamente produtivo. Você começa a aprender novas coisas já na saída de sua cidade, com a caravana do evento. Novas amizades surgem, novos interesses e, principalmente, novas perspectivas de vida e de trabalho.

Isso serve para todas as áreas: se existe um evento/curso/palestra que você sabe que será no mínimo interessante de assistir, vá. Sei que “cada caso é um caso”, mas não fique com medo de pedir licença do trabalho ou escola. No futuro, oportunidades como essas podem não aparecer, e o arrependimento é o único sentimento que ficará na sua cabeça.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Foi sem querer... querendo" O acidente de trabalho como ato falho.

O grande número de acidentes é motivo de preocupação e alarme em grande parte das empresas, especialmente na indústria. É, em geral, por causa desse número que se buscam soluções como novos equipamentos de segurança, treinamentos, normas de segurança mais rígidas, entre outras respostas. Há quase um consenso entre as pessoas envolvidas na árdua tarefa de reduzir o número de acidentes, de que tal tarefa é tão difícil por causa de problemas de comportamento dos trabalhadores. Isso significa, quase sempre, que os trabalhadores têm conhecimento sobre os riscos da atividade e sobre como preveni-los, mas não o fazem porque “não querem”, ou “não prestam atenção”.

Cabe aqui um questionamento. Será que o acidente é apenas isso, um acaso, uma falta de atenção? Ou será que ele revela mais do que, a princípio, podemos perceber? Neste artigo pretende-se utilizar o conceito psicanalítico de ato falho para entender o acidente de trabalho. A psicanálise é conhecida, principalmente, pela clínica freudiana e seus famosos (e muitas vezes errôneos) clichês, ligados a conceitos como Inconsciente e Complexo de Édipo. Freud, no entanto, também se dedicou a entender a sociedade como um todo, e como as normas e regulações da cultura afetam o psiquismo do homem.

Freud defende que o homem é um ser dividido entre as regras morais da cultura e seus desejos inconscientes, que ignoram essas regras. Os conteúdos do inconsciente são indesejados pelo ego (consciência), e por isso este exerce uma censura para impedir que esses conteúdos tornem-se conscientes. No entanto, esses conteúdos encontram várias formas de se manifestar, desviando da censura através da utilização de símbolos. Algumas dessas formas são o sonho, o chiste e o ato falho, sendo este último um conceito que, como pretende demonstrar este artigo, pode ser aplicado aos casos de acidente de trabalho.

O ato falho é qualquer ação que teve sua intenção desviada, ou seja, uma ação cujo resultado foi equivocado. Como exemplos, podem ser citados os casos de esquecimentos ou erros nos nomes de pessoas ou lugares, datas, erros na pronúncia de palavras, movimentos desastrados (deixar cair ou quebrar algo), tropeçar, cair, perder objetos, enfim, uma série de pequenos erros que todos cometemos em nosso cotidiano. Freud afirma que o ato falho é um ato sintomático, o que significa que ele surge do conflito de duas intenções, uma consciente e outra inconsciente, que resulta em um acordo, que é o próprio ato falho. O ato falho, então, é uma forma de um determinado (ou vários) conteúdos inconscientes se manifestarem indiretamente, sem que tenham que ser totalmente expostos à consciência, pois isso geraria desprazer. Assim, o ego não precisa “tomar consciência” desse desejo inconsciente, e este por sua vez encontra sua satisfação.

A “categoria” de atos falhos, se é que se pode dizer assim, que mais se aproxima dos casos de acidente de trabalho é a dos equívocos na ação. Os equívocos na ação são definidos por Freud como os casos em que o efeito falho, ou seja, o desvio do que foi intencionado, é o elemento essencial. Assim, ele afirma que movimentos aparentemente desajeitados são, na realidade, extremamente hábeis e conseqüentes, no sentido de cumprir o objetivo inconsciente, como por exemplo, destruir um objeto específico e deixar intactos todos os outros que estão ao redor. Esses movimentos têm um caráter violento e impetuoso, mas mostram-se regidos por uma intenção e alcançam seu objetivo com uma segurança que os movimentos voluntários conscientes não costumam possuir. Assim, deixar cair, derrubar e quebrar objetos são atos usados com freqüência para expressar cadeias inconscientes de pensamentos.

Da mesma forma, dar um passo em falso ou escorregar, ou seja, sofrer um quase acidente, não deve ser sempre interpretado como uma falha acidental das ações motoras. Para Freud, a queda pode ser um produto da neurose, uma expressão das mesmas fantasias inconscientes que são as forças motoras por trás dos sintomas. Freud desenvolveu a teoria de que muitos ferimentos aparentemente acidentais sofridos pelos neuróticos são lesões auto-infligidas, uma vez que há uma tendência à autopunição. Mas mesmo nas pessoas não-neuróticas, “normais”, esses atos podem ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes. É preciso tomar cuidado, especialmente no caso dos acidentes de trabalho, com a tendência de culpar o indivíduo, senão pela falta de atenção, pelo “desejo inconsciente de se machucar”. A idéia de comparar o acidente de trabalho com o ato falho não é esta.

Isso porque este indivíduo está inserido em uma organização, que tem processos culturais e formas de organização do trabalho específicas, as quais têm grande efeito sobre sua subjetividade. O que se defende é que o acidente de trabalho, à luz da teoria freudiana dos atos falhos, pode ser entendido como uma forma que o trabalhador encontra de manifestar conteúdos inconscientes ligados à organização da qual faz parte. A partir desta sentença, pode-se imediatamente pensar em insatisfação com o trabalho, com a remuneração, etc., mas não se trata apenas disso. Esta pode ser uma forma de manifestar questões problemáticas na cultura da empresa, na relação com os colegas de trabalho ou com a liderança, ou seja, padrões de funcionamento problemáticos da organização. Importante lembrar que é o trabalhador que se adapta à cultura da empresa, e não o contrário, ou seja, a cultura de uma organização é um sistema maior que cada pessoa que faz parte dela.

É preciso ressaltar que esta não pretende ser uma explicação única e universal para a ocorrência dos acidentes de trabalho. Trata-se de uma possibilidade teórica que precisa ser mais explorada, a fim de verificar quais são suas possíveis aplicações e benefícios. Mesmo sem essa exploração, no entanto, já é possível afirmar que a famosa resposta “foi sem querer” não pode mais ser aceita, a não ser que venha acompanhada de seu complemento, “foi sem querer... querendo”.