sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Foi sem querer... querendo" O acidente de trabalho como ato falho.

O grande número de acidentes é motivo de preocupação e alarme em grande parte das empresas, especialmente na indústria. É, em geral, por causa desse número que se buscam soluções como novos equipamentos de segurança, treinamentos, normas de segurança mais rígidas, entre outras respostas. Há quase um consenso entre as pessoas envolvidas na árdua tarefa de reduzir o número de acidentes, de que tal tarefa é tão difícil por causa de problemas de comportamento dos trabalhadores. Isso significa, quase sempre, que os trabalhadores têm conhecimento sobre os riscos da atividade e sobre como preveni-los, mas não o fazem porque “não querem”, ou “não prestam atenção”.

Cabe aqui um questionamento. Será que o acidente é apenas isso, um acaso, uma falta de atenção? Ou será que ele revela mais do que, a princípio, podemos perceber? Neste artigo pretende-se utilizar o conceito psicanalítico de ato falho para entender o acidente de trabalho. A psicanálise é conhecida, principalmente, pela clínica freudiana e seus famosos (e muitas vezes errôneos) clichês, ligados a conceitos como Inconsciente e Complexo de Édipo. Freud, no entanto, também se dedicou a entender a sociedade como um todo, e como as normas e regulações da cultura afetam o psiquismo do homem.

Freud defende que o homem é um ser dividido entre as regras morais da cultura e seus desejos inconscientes, que ignoram essas regras. Os conteúdos do inconsciente são indesejados pelo ego (consciência), e por isso este exerce uma censura para impedir que esses conteúdos tornem-se conscientes. No entanto, esses conteúdos encontram várias formas de se manifestar, desviando da censura através da utilização de símbolos. Algumas dessas formas são o sonho, o chiste e o ato falho, sendo este último um conceito que, como pretende demonstrar este artigo, pode ser aplicado aos casos de acidente de trabalho.

O ato falho é qualquer ação que teve sua intenção desviada, ou seja, uma ação cujo resultado foi equivocado. Como exemplos, podem ser citados os casos de esquecimentos ou erros nos nomes de pessoas ou lugares, datas, erros na pronúncia de palavras, movimentos desastrados (deixar cair ou quebrar algo), tropeçar, cair, perder objetos, enfim, uma série de pequenos erros que todos cometemos em nosso cotidiano. Freud afirma que o ato falho é um ato sintomático, o que significa que ele surge do conflito de duas intenções, uma consciente e outra inconsciente, que resulta em um acordo, que é o próprio ato falho. O ato falho, então, é uma forma de um determinado (ou vários) conteúdos inconscientes se manifestarem indiretamente, sem que tenham que ser totalmente expostos à consciência, pois isso geraria desprazer. Assim, o ego não precisa “tomar consciência” desse desejo inconsciente, e este por sua vez encontra sua satisfação.

A “categoria” de atos falhos, se é que se pode dizer assim, que mais se aproxima dos casos de acidente de trabalho é a dos equívocos na ação. Os equívocos na ação são definidos por Freud como os casos em que o efeito falho, ou seja, o desvio do que foi intencionado, é o elemento essencial. Assim, ele afirma que movimentos aparentemente desajeitados são, na realidade, extremamente hábeis e conseqüentes, no sentido de cumprir o objetivo inconsciente, como por exemplo, destruir um objeto específico e deixar intactos todos os outros que estão ao redor. Esses movimentos têm um caráter violento e impetuoso, mas mostram-se regidos por uma intenção e alcançam seu objetivo com uma segurança que os movimentos voluntários conscientes não costumam possuir. Assim, deixar cair, derrubar e quebrar objetos são atos usados com freqüência para expressar cadeias inconscientes de pensamentos.

Da mesma forma, dar um passo em falso ou escorregar, ou seja, sofrer um quase acidente, não deve ser sempre interpretado como uma falha acidental das ações motoras. Para Freud, a queda pode ser um produto da neurose, uma expressão das mesmas fantasias inconscientes que são as forças motoras por trás dos sintomas. Freud desenvolveu a teoria de que muitos ferimentos aparentemente acidentais sofridos pelos neuróticos são lesões auto-infligidas, uma vez que há uma tendência à autopunição. Mas mesmo nas pessoas não-neuróticas, “normais”, esses atos podem ser interpretados como manifestações de desejos inconscientes. É preciso tomar cuidado, especialmente no caso dos acidentes de trabalho, com a tendência de culpar o indivíduo, senão pela falta de atenção, pelo “desejo inconsciente de se machucar”. A idéia de comparar o acidente de trabalho com o ato falho não é esta.

Isso porque este indivíduo está inserido em uma organização, que tem processos culturais e formas de organização do trabalho específicas, as quais têm grande efeito sobre sua subjetividade. O que se defende é que o acidente de trabalho, à luz da teoria freudiana dos atos falhos, pode ser entendido como uma forma que o trabalhador encontra de manifestar conteúdos inconscientes ligados à organização da qual faz parte. A partir desta sentença, pode-se imediatamente pensar em insatisfação com o trabalho, com a remuneração, etc., mas não se trata apenas disso. Esta pode ser uma forma de manifestar questões problemáticas na cultura da empresa, na relação com os colegas de trabalho ou com a liderança, ou seja, padrões de funcionamento problemáticos da organização. Importante lembrar que é o trabalhador que se adapta à cultura da empresa, e não o contrário, ou seja, a cultura de uma organização é um sistema maior que cada pessoa que faz parte dela.

É preciso ressaltar que esta não pretende ser uma explicação única e universal para a ocorrência dos acidentes de trabalho. Trata-se de uma possibilidade teórica que precisa ser mais explorada, a fim de verificar quais são suas possíveis aplicações e benefícios. Mesmo sem essa exploração, no entanto, já é possível afirmar que a famosa resposta “foi sem querer” não pode mais ser aceita, a não ser que venha acompanhada de seu complemento, “foi sem querer... querendo”.